Em 2019 a mineradora Alcoa já explorava bauxita em Juruti, município vizinho, e queria avançar sobre o PAE Lago Grande para expandir sua produção de alumina. A resposta do território foi caminhar.
A I Romaria do Bem Viver, idealizada pela Pastoral da Juventude da Região 08 da Arquidiocese de Santarém, atravessou 35 quilômetros do assentamento. Mais de 1.300 pessoas fizeram esse caminho ligando fé e vida, duas coisas que aqui nunca andaram separadas.
Ao longo da caminhada ficou claro o que estava em jogo. O PAE Lago Grande não é apenas floresta, terra e água. É gente que luta por sobrevivência e por vida digna, e cuja identidade, cultura e modo de vida estão amarrados nesse chão.
No dia 16 de novembro, na comunidade Cuipiranga, a romaria assinou o Manifesto de Cuipiranga, documento que declarou o PAE Lago Grande território coletivo, do Bem Viver e livre de mineração.
Foi dessa romaria que nasceu, no ano seguinte, o Coletivo de Juventudes Guardiões do Bem Viver.
A segunda romaria aconteceu no meio de uma das maiores secas já vividas na Amazônia. Realizar um encontro sobre água justamente no ano em que a água estava sumindo não foi coincidência. Foi decisão.
Desta vez não caminhamos, navegamos. Mais de dez embarcações subiram o Arapiuns em cinco horas de viagem até a Terra Indígena Cobra Grande, levando comunidades do PAE Lago Grande, da TI Cobra Grande e da RESEX Tapajós Arapiuns para o mesmo lugar.
Foram três dias de seminários e rodas de conversa sobre a preservação das águas, com o tema Água é Bem Comum. Ali foi firmada a Aliança dos Povos das Águas e das Florestas.
A romaria assinou o Manifesto das Águas e deliberou uma coisa que segue em construção até hoje: um projeto de lei para reconhecer o Rio Arapiuns como sujeito de direito.
Nós não somos do rio Arapiuns, nós somos o rio Arapiuns. (Manifesto das Águas, 2023)
Para nós não foi um feito extraordinário. Foi o cumprimento do nosso papel como Guardiões do Bem Viver.


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